fevereiro 03, 2004

O Rui. De novo. O Rui tem doze anos.
Estamos no Centro de Recursos e ele quer construir pirâmides com uns elementos parecidos com os legos. Procura avidamente as formas certas.
Tem olho certeiro, o Rui.
Uma pirâmide quadrangular, diz o Rui com um sorriso.
Eu dou-lhe o troco: e uma pentagonal? (O que eu não reaprendi com este miúdo!...)
Em um abrir e fechar de olhos o Rui busca os elementos certos e fecha a pirâmide, como se acabasse de reconquistar uma cidade aos invasores.
Dou mais uns trocados ao Rui: e o que é que está dentro da pirâmide?
O Príncipe, responde o Rui.
O Rui é autista. De vez em quando deixa-nos entrar na sua pirâmide.

 

dezembro 06, 2003


As palavras são como as cerejas

Querem-se maduras, madurinhas
a pedir sol e calor
rega quanto baste
e um afago ao acordar.

Olá, cereja, cerejinha
queres casar comigo?
Queres ser brinco de princesa
neste trono a despontar?

E a cereja-palavrinha
desprendeu-se do seu ninho
e muito atrevidinha
pousou na mão da menina.

Assim nasceu um poema-cereja
ou cereja-palavra
ou palavra-poema
feito brinco de princesa
no teu reino a começar.

copyright|Teresa Lopes

 

novembro 17, 2003

Uma Dádiva

Estávamos numa aula de Estudo Acompanhado. Eu e o meu colega destas andanças. Fazíamos exercícios sobre sinónimos numa turma do 5º ano.
Procurávamos frases em que pudéssemos aplicar a palavra dádiva.
Depois de várias tentativas falhadas o António (nome fictício, claro) levanta o braço, impaciente.
Diz lá, António.
E o António dispara: Este país está uma desgraça!
Risada geral.
Então, António, e onde está a palavra dádiva?
O António fica calado, com um sorriso amarelo... parecia um pouco alheado destes palavrões que se chamam de sinónimos.
O meu colega destas andanças segreda-me:
Este rapaz é uma dádiva de Deus!

 

outubro 19, 2003

Talvez um dia de verão

Hoje está sol. Logo pela manhãzinha, já a aula tinha começado, entra-me o Rui sala adentro, lágrima no olho a arrastar a pasta. Parámos todos: eu e mais as vinte cabeças ainda mal acordadas que enchem as paredes frias da sala.
O Rui chora na escola, o Rui quer ir para casa!... (Isto, é a fala do Rui, claro!)
O Rui tem a minha altura. Dirige-se para mim e continua de lágrimas nos olhos entreabertos, mas agora abraçado ao meu pescoço, como se eu fosse o elo de ligação, em flash mode , para a fortaleza do seu quarto.
Em vão tentamos dissuadi-lo das suas intenções.
Vamos para a sala lá de baixo, Rui? Sugere um dos anjos de guarda.
Não! O Rui vai chorar no Outono. O Rui vai chorar com a professora!... (Mais uma vez, estas foram as palavras do Rui.)

Não sei se me ouves agora, Rui, mas hoje faz sol e foi uma manhã de Verão para mim.